sábado, 21 de fevereiro de 2026

35

Se eu fosse fazer cada citação do que me compõe ou a esse texto, nem sei se encontraria a mim em meio às referências. EU SOU. É tão potente que é usado biblicamente. E não podemos negar, há uma certa humildade em mim. Não que eu ache que seja a hora pra isso! São seis anos sem publicar algo aqui. O primeiro texto foi em março de 2015. Tentar retrabalhar essa existência seria uma tortura terapêutica, mas não pretendo me corrigir de erros do passado nesse sentido. Esse hiato de existência diz muito de quem eu era. E, puta merda, como eu tenho que agradecer a essa criança. Vamos então nos propor aos 35. Eu parei de escrever. O primeiro texto do Escrivinhando começa com A ARTE PARA MIM. Não vou me reexplicar; esse é um dos textos que eu sempre revisito, mesmo sem precisar ler. Tem meu sangue ali, vocês nunca vão ver. Como eu disse há pouco: EU SOU... É tão efêmero.

Nos discursos sobre identidade, você é aquilo que repete. Dá pra confiar em você conforme vou te conhecendo. Você age assim em tal situação, assim em outra, e isso constrói o que você vai sendo. Você só se torna, de fato, quando acaba. Perfeito. Aí podemos julgar. E morre do nada, tá? Não ache que seus breves anos na Terra te favorecem ou protegem da finitude. Basta estar vivo pra acabar. Então, sobre esse aniversário, esse marco vulgar do calendário, como seria um desabafo pra me celebrar? Essa identidade inconstante que reza a deuses pra não marcar bobeira de não comemorar o que é pra festejar. Eu parei de escrever, mas voltei a desenhar. 

 E se não vou falar do que eu sou, talvez um outro caminho seja tentar dizer o que eu sinto. Aí AMOR seria um bom lugar pra começar. E ninguém pode negar que a isso eu me dedico com afinco. Oscar Wilde diz: "Tudo nesse mundo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre poder". Então, pra tentar colocar meu ego de lado e tentar me fazer entender: Eu adoro me apaixonar! Tudo o que eu tenho aqui calado, dentro da minha cabeça, com a vida inteira pra analisar, é só EU. Você tem um outro universo inteirinho pra me apresentar. Nunca serei obrigado a gostar de nenhuma parte dele, mas quando teu jeito moleque é bom, quando a masculinidade é suave, quando a feminilidade é imponente, quando você sabe que esses rótulos não servem de porra nenhuma e tudo é performance, a gente tá é se descobrindo nesse caos do ser. Não é pra ser útil, é uma dança; reduzir a uma coreografia seria ridiculo. O amor perfeito é uma amizade com momentos eróticos. A liberdade é reconhecer o que te constrange e, ainda assim, escolher ser você mesmo. Quem quiser que ame. Quem puder que fique. Porque amor também é deixar ir. 

 Eu gosto de sentir as belezas das tuas coisas escondidas; não que eu precise de completude, já assumi a própria falta. E tenho sido tão bom pra mim mesmo. Eu também faço péssimas escolhas, afinal são várias décadas pra averiguar. E me apaixono suportando não ser tudo pro outro e parto daí. A dor é a melhor professora, mas ninguém quer assistir a essa aula. E eu sei ser mais cruel comigo mesmo do que vocês conseguem ser injustos pra me definir. Hilda Hilst diz que “é triste explicar um poema. É inútil também”. Mesmo nos piores dias não sei deixar de sonhar; se eu chorar pra refazer as nascentes que você secou, me encontrará vestido de estrelas e encharcado de poesia no final. Isso eu consigo dizer sobre mim:

       Eu sou poesia. 
    E nunca vi algo selvagem
                                       com pena de si. 

E tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve pra poesia. Então leio os outros com profundidade e não como distração; porque não leio pra me distrair, leio pra comunicar. Porque meu corpo não é só matéria e, no meu carnaval, eu não danço pra que olhem, danço pra criança interior que diz que não há jeito errado de dançar. A ela tentaram desenhar limites, comparar biografias: Fulano nasceu, fundou cidade, inventou foguete, foi pro espaço. Uma historinha minúscula perto da vida. Essa criança transbordou, é vasta demais pra caber em fronteiras. A carne é território, arquivo ancestral, e meu corpo, templo sagrado sempre aberto à visitação, a cada passo dança histórias que vieram antes de nós. Dá pra ouvir o tambor ressoar; o inconsciente não esquece, retorna. E como é bom estar em paz com o desejo que nasce onde o controle falta. Aqui dentro da gente (eu e essa criança), estamos de mãos dadas. Sabendo que somos
  reles, como toda gente. Não temos ideais, mas não os tem ninguém. Quem diz que os tem é como eu, mas mente. Quem diz que busca é porque não os tem. É com a imaginação que eu amo o bem. Meu baixo ser, porém, não se consente. Passo, fantasma do meu ser presente. Ébrio, por intervalos de um além.                                                       Os beijos são dados nas bocas que brotam palavras de encanto. A fumaça que a tua boca espairece no ar, paira à beira de um coração em desalinho; quase queimam, quase teimam em te amar. Densa e intensa, tocada pela chuva, por duas bocas no mesmo beijo, afetado pelos fogos, com milhões de encontros dos nossos olhos em meio à multidão, com dramalhão de despedida, desistência, te despir a cara de bravo, te deixar sem graça, te contrapor com graciosidade, ver seus sintomas não como defeitos, mas como linguagem e com palavras confusas fugir do clichê "eu te amo".  Eu acho que eu sou apaixonado pela vida e demonstro. O que dizer da minha biografia até aqui? Sei lá. 

Mas se eu puder dar algum conselho depois de tanto tentar fazer recortes sobre mim: SE AME e foda-se o que eu penso. Ache as tuas maneiras, olhe pra sua criança, saiba que o passado é o que não pode ser mudado, reconheça suas necessidades de ser afetado, caminhe ao lado de quem te faz bem e aprenda todas as formas de amar, sabendo que nem todas vão servir. Quando você olhar pra ela, olhe com o carinho que ela merece; os outros estão ocupados demais em seus universos. Que não se tenha pressa, mas que não perca tempo de refazer minhas asas a cada dia e inventar o amor como as crianças inventam alegria. Aqui dentro ainda tem uma criança muito presente aos 35 anos de idade, que ainda me encara e grita, e eu devo muito a ela, e nós devemos muito a todos que nos transformaram. Pra sair de casa, eu toco na TERRA e me lembro que pecado é tentar ser melhor ou pior que alguém, que tudo nos une. Toco fazendo uma reza apressada sobre mudar o mundo — não todo ele, só o que a gente consegue tocar.  E quando perguntam sobre esse sorriso que não passa, poder lembrar que é porque essa criança, independente de onde estiver, promete a todos seus avós, ancestrais e parentes, promete à própria mãe, à irmã e às tias, promete aos amigos e aos desavisados que essa criança será tratada como RAINHA. Porque não nasceu filho da puta ainda que consiga nos definir, nem nos diminuir. 

O aniversário é meu, mas eu te desejo sucesso! Ou seria felicidade?
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2 comentários :

  1. Para o melhor filósofo desta geração,

    dedico minhas sinceras e mais calorosas estimas por seu aniversário. Não somente pela data, mas pela arte de expressar o que sente com tanto afinco, acolhimento, ternura e energia.

    Agradeço imensamente pela honra e privilégio de presenciar sua história.

    Não há dúvidas do orgulho que sua criança interior deve ter de ti, por expressar sem receio, seu amor e arte sem fronteiras.

    Para aquele que me ensinou sobre a importância do carinho e gentileza com o "eu", obrigado por me permitir aprender com esta grandiosa Rainha.

    - JH

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  2. Amo tudo q vem de vc ,mesmo q hj não esteja presente,mas nunca ausente,parabens

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